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  • A Capoeira pela Paz

    A Capoeira é uma arte marcial brasileira caracterizada por movimentos não-violentos.

     

    Mistura a prática de esportes, acrobacia, música e cultura popular.

    Teve início no Brasil por descendentes de africanos escravizados . É considerada pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

    O uso da Capoeira na RD Congo se tornou uma poderosa ferramenta para ajudar a desmobilizar crianças e adolescentes de grupos armados e vítimas de violência.

    Ex-crianças soldado de grupos rebeldes, crianças em situação de vulnerabilidade e meninas vítimas de violência e recrutamento forçado recebem aulas de como praticar esta arte marcial genuinamente brasileira. Elas também aprendem a tocar e a cantar.

    A iniciativa é liderada pelo Governo do Brasil e do Canadá, e foi abraçada pela UNICEF na RD Congo. Entre os doadores estão a organização internacional AMADE-Mondiale e países como a Suécia e Bélgica.

    A prática da Capoeira aborda a autoconfiança e a autoestima entre as crianças e suas famílias. O objetivo é o de reduzir as desigualdades e ajudar na superação de traumas.

    Em um país devastado pelo conflito e mergulhado em interesses comerciais, a reconstrução de laços comunitários e restauração de uma cultura de paz, tem se tornado um grande desafio.

    De duas a três vezes por semana, crianças no Hospital Heal Africa, no centro de Goma, aprendem a jogar Capoeira. Meninos no Centro de Trânsito e Orientação (CTO) CAJED e no abrigo do Programa de Apoio à Luta contra a Miséria (PAMI), também praticam esta arte marcial. Tanto o hospital Heal Africa como o CAJED e o PAMI são parceiros da UNICEF.

    Com a prática, vem a autoconfiança, o fortalecimento emocional, a construção de laços comunitários, a superação de diferenças de gênero, a redução de desigualdades e a cura de traumas.

    Desde 2014, a iniciativa já beneficiou cerca quatro mil crianças em Goma, capital da província de Kivu do Norte, a maioria associada a grupos armados no leste do país.

    Na última década, mais de 20 mil crianças soldado foram liberadas de grupos armados na RD Congo, segundo a UNICEF. O governo estima que mais de 3.500 crianças ainda estejam associadas a milícias.

    A iniciativa coordenada pelo capoeirista brasileiro, Mestre Saudade, e dois professores congoleses Ninja e Karibu, ensina aos meninos que viveram traumas a jogar a capoeira brasileira. Eles aprendem a tocar instrumentos de percussão, a gingar em roda e a cantarolar em português.

    As crianças atendem as atividades de forma voluntária. “Todas vêm naturalmente para as aulas de capoeira”, explicou Mestre Saudade.

    “Vemos que ela traz felicidade para essas crianças que redescobrem o próprio corpo, sua autonomia e retomam o laço afetivo que foi rompido. Elas se tornam ainda mais fortes diante das dificuldades”, ressaltou.

    A UNICEF trabalha para criar indicadores e, assim, transformar a Capoeira em um modelo para utilizar em áreas de conflito.

    “Espero que essas crianças sejam felizes e se tornem adultos capazes de lutar para realizar seus sonhos”, diz o capoeirista brasileiro.

    Rompendo as divisões étnicas

    Joachim Fikiri, coordena o Programa de Apoio à Luta contra a Miséria (PAMI), uma associação sem fins lucrativos fundada em 1997, mostra entusiasmo ao falar da Capoeira e o seu poder de ajudar no aspecto psicossocial das crianças.

    O PAMI administra um espaço para acolher meninos que estiveram associados a grupos armados em Goma.

    “A crianças chegam traumatizadas. Decidimos incluir a Capoeira no nosso programa pedagógico como mais um apoio psicossocial”.

    A Capoeira, segundo Fikiri, permite que as crianças deixem para trás o seu passado o grupo armado e o seu comportamento violento e passem a ter “uma vida de novo”.

    A mensagem da Capoeira é uma mensagem de paz. Apenas no PAMI, por ano, cerca de 500 crianças participam das atividades da Capoeira.

    Fikiri sonha poder expandir a prática para comunidades no interior da província de Kivu do Norte.

    “Gostariamos que a Capoeira fosse além dos limites de Goma e pudesse ser implementada em diversas localidades e grupos étnicos”, disse.

    Segundo ele, nestas comunidades do interior é onde há mais necessidade de desenvolver atividades que possam promover a reconciliação, quebrar a rivalidades étnicas e criar uma coesão social.

    “É nas comunidades no interior onde os conflitos se desencadeiam”, explicou.

    Igualdade de gênero

    É grave a situação de desigualdade de gênero e a violência de gênero no leste da RD Congo.
    São as mulheres e as meninas que acabam se tornando alvo da violência estrutural que acomete a região. E a pobreza agrava ainda mais esta situação.

    “É um ciclo em que mulheres e crianças são as que mais sofrem”, explica Daniel Mbungo, coordenador de atividades no Hospital Heal Africa, no centro de Goma, que recebe pacientes de toda a província para tratar de temas relacionados à saúde física e mental fruto da violência.

    São as mulheres as encarregadas de prover alimentos para a família e cuidar do lar.

    “Se a mãe que é o coração sofre, toda a família também sofrerá. Temos um ditado que falamos: educar uma mulher é educar uma nação”, disse Mbungo.

    A melhor forma para prevenir a violência contra as mulheres é sensibilizar a sociedade.

    “Uma abordagem holística dentro das comunidades. A violência é um fator cultural. Esperamos que através da Capoeira, possamos ajudar a criar uma mudança positiva”, acredita Mbungo.

    Ele espera que quanto mais empoderadas as meninas são, elas terão um importante papel a desempenhar como fazedoras da paz.

    Mbungo afirma já poder ver os resultados na prática após a inclusão da Capoeira como uma nova abordagem para ajudar no processo de destraumatização de mulheres e crianças.

    “Vejo os resultados claramente. Quando apenas oferecíamos terapias às meninas, o processo levava muito mais tempo. Com a Capoeira, as crianças estão avançando em passos largos, é muito mais rápido”, admitiu.

    O uso da Capoeira começou como um projeto piloto, explicou Marie Diop, a especialista em proteção à criança da UNICEF em Goma.

    “Queriamos ver se sería possível e como as crianças aceitariam. Achamos que seria uma ótima oportunidade de reunir meninos e meninas nesta atividade”, explicou.

    Após três anos, a Capoeira foi então expandida para o Hospital Heal Africa com o foco de incluir sobreviventes de violência sexual.

    “Temos agora crianças de diversas vulnerabilidades e a Capoeira está ajudando a criar respeito e disciplina”, disse Diop.

    Na RD Congo, a violência está profundamente arraigada em normas sociais.

    Os dados são limitados. Um estudo de 2011, publicado pelo Jornal Americano de Saúde Pública, apontou que entre 1.69 e 1.8 milhão de mulheres congolesas foram sexualmente violentadas.

    Outro estudo de 2014 em Kivu do Norte mostrou que metade das mulheres que sofreram violência sexual foi no âmbito familiar. O relatório pôs em evidência a disseminação de uma “epidemia do estupro” na região.

    Dados precisos sobre violência de gênero são difíceis de obter e muito se deve porque as sobreviventes não denunciam por receio e medo de sofrer estigma.

    Um informe sobre o perfil de gênero do país de 2014 indicou que 99% dos que cometem a violência são homens.

    A violência sexual é uma violência provocado pelo sexo masculino.

    A gravidez prematura é uma das consequências desta epidemia do estupro e tornou-se um grave problema de saúde na RD Congo, com uma média de 25% das mulheres entre 20 e 24 anos que deram à luz antes mesmo de completarem 18 anos de idade. Essas mulheres foram mães ainda meninas.

    “Queremos oferecer às meninas e mulheres que recorrem ao hospital um outro espaço de trocas, comunicação e empoderamento. Fazer com que deixem de ser vítimas e passem a ser sobreviventes”, diz Diop.

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