0%
  • English
  • Português
  • Español
  • O sonho de ser rapper

    Sylvain

    “Quero ser um cantor. Compus já uma música, eu mesmo fiz”.

     

    Sylvain Mbuki tem 18 anos e há cinco vive nas ruas.

    Nascido em uma comunidade a 10 km ao norte de Goma, Sylvain é o primogênito de uma família de quatro irmãos e uma irmã.

    O pai morreu quando lutava durante a Segunda Guerra do Congo que terminou em 2002. O pai era soldado do exército congolês.

    Com outros vinte adolescentes, o rapaz vive nas redondezas do Quartier les Volcans, uma movimentada área central de Goma onde vivem a comunidade de expatriados e funcionários das Nações Unidas.

    “Espero poder ser cantor e viver da música. A minha inspiração vem da minha vida, de mim mesmo. A minha música fala da nossa vida nos guetos em Goma”.

    Durante o dia, busca fazer bicos, lavar carros e pedir dinheiro. Não é todo dia que consegue comida.

    Ele e as crianças de rua dependem da generosidade de pedestres para lhe oferecer um pouco de alimentos.

    “Há dias que não consigo nada para comer. Não tenho o que fazer, não tenho como ir para a escola, não tenho como trabalhar. Por isso acabo nas drogas. A vida não é fácil”.

    Quando a noite chega, se embrulha em caixas de papelão e espera pegar no sono.

    © Flavio Forner

    “Gostaria de volta para a minha casa, mas preciso ter dinheiro.”

    Sylvain faz parte de uma geração de crianças de rua proliferou-se após duas décadas de conflitos armados que assolaram o leste da RD Congo.

    Só em Goma, há mais de duas mil crianças nas ruas, muitas delas perderam-se ou foram abandonadas por suas famílias.

    Viúva do marido soldado e sem amparo, a mãe de Sylvain teve que casar-se novamente para garantir o seu sustento. Hoje, ela consegue alguns trocados da venda de carvão e lenha, conta o filho.

    Sylvain é um dos órfãos do conflito.

    As crianças de rua em Goma estão por todas as parte, vivem de esmolas, pequenos roubos e abordam com frequência estrangeiros.

    De dia, perambulam pelas ruas da cidade, onde andam a buscar pequenos serviços que lhes garantam alguns centavos de francos congoleses.

    De noite, se abrigam embaixo dos bueiros de esgoto das principais rotatórias da cidade ou em guetos de obras e terrenos baldios.

    © Flavio Forner

    Em um cadastramento feito pelas equipes dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), foram registradas 2.200 crianças em situação de rua.

    Segundo Carla Melki, coordenadora de terreno da organização, estima-se que existam outras mais 1.500 entre crianças, adolescentes e jovens adultos em Goma que ainda não se tem registro.

    “Constatamos que são muitas crianças que estão nas ruas. Algumas fugiram, foram expulsas, ou seus familiares desapareceram. É comum que mães viúvas, ao se casarem novamente, o padrasto rejeite o filho do primeiro casamento”, explicou Melki.

    A existência de centenas de crianças nas ruas na capital de Kivu do Norte representa um grave problema social que pode fragilizar a já em paz cidade desde o desmantelamento do grupo armado M23 que invadira Goma, em 2012.

    São 16 anos de criada a Missão de Paz da ONU na RD Congo (MONUSCO) com seus batalhões e militares e civis baseados lá.

    Goma tornou-se um hub humanitário para também inúmeras organizações internacionais.

    Sylvain vê na música uma válvula de escape e de libertação.

    Seu ídolo é um jovem rapper congolês Wanny S-King, de 26 anos. É nele quem busca inspiração e, hoje, quando pode participa da sua banda.

    © Flavio Forner

    Uma das músicas mais recentes de Wanny se chama ‘Maibobo’. Em swahili, meninos de rua.

    Um dos seus grandes sonhos era participar de um vídeo clipe de seu ícone. Sylvain foi um dos rapazes escolhidos para tocar na banda de Wanny.

    “As crianças de rua são a minha inspiração. Tenho uma grande conexão com eles, são todos meus irmãos”, conta Wanny S-King.

    Maibobo fala de como é a vida de uma criança de rua.

    “Eles não estão felizes vivendo nas ruas. Ficam doentes e o que mais querem é voltar a ter uma vida normal. Ninguém os entende”, explica Wanny.

    E foi por esta razão que Wanny compôs a canção. “Para mostrar que as pessoas devem ajudar a essas crianças a sair das ruas”.

    Com a arte, tudo é possível. “Porque a arte não tem limites”.

    Para Wanny, a arte tem o poder de reunir as pessoas.

    “É uma boa ideia reunir a arte para promover a paz. Usar a arte como uma arma pacífica e não-violenta”.

    “Apenas quero ser livre e viver em paz. Quero que as crianças saiam das ruas. Não futuro lá”.

    No more articles
  • English
  • Português
  • Español